
Acabaram de contar a Francis mais uma calúnia envolvendo a sua amada Sally. É... Ela saiu com um cara popular... Claro que a última briga do casal foi para romper a relação. - e acabou rompendo a barreira do som junto – Porém nenhuma perda de audição (ou de vergonha, já que tudo ocorreu na frente do colégio) era suficiente para a fissura por Sally cessar. A senhora Goinita não suportava mais ver seu filho querendo deixar a garota materialmente satisfeita... Francis jamais tinha sido alguém consumista até conhecer aquela menina, a própria dona Beulah Goinita inventara a tal calúnia para tentar eliminar a paixão de Francis. E não obteve sucesso:
- A senhora me contando uma mentira dessas. Por que, mãe?
- Essa pergunta é minha! Filho, essa Sally não pres... Serve para você! Já te falei isso!
O jovem recusou-se a olhar para sua genitora. Sempre passou por desilusões amorosas desde que se entendia por gente (coisa de uns dois anos) e não iria admitir que Sally não gostasse dele de verdade. Ora, ele a ajudava em todas as provas do colégio... Geralmente fazendo o seu exame com o nome dela e depois trocando com a folha da sua amada na carteira da frente, Sally provavelmente se encantou por todas aquelas “provas de amor”. Mas o pensamento foi desarmado pela intuição de mãe pertencente à Beulah:
- Você é ingênuo, filho... Tão esperto para assuntos de escola, mas tão desligado em comportamentos de vida. Acha que fazer as provas a conquistou? Só fez meu filho virar um escravo dela. – A mulher tentou abraçar Francis depois da declaração, mas não recebeu o retorno desejado.
O único herdeiro das dívidas da família Goinita tinha intenção de ir para a escola ler algum livro ou conversar com alguém, mas lembrou que a semana de provas permitia que os alunos fossem para a casa mais cedo. Ou seja, já tinha ido para lá naquele dia, mas não queria admitir. O colégio era muito mais acolhedor para aquele cara estudioso do que o próprio lar. Depois de atravessar a avenida antes do edifício escolar, Francis acabou trombando numa pessoa apressada e derrubou a bolsa alheia. Apesar de prontificar-se a recolher o que caiu, o homem impediu a ação dele com um gesto educado, repôs tudo de qualquer jeito e foi-se. Nem olhou para o garoto.
- Olha só quem está vindo! O amor da sorriso metálico! Já podemos zombar de alguém hoje! – Definitivamente, Francis chegou ao seu colégio. Os amigos do “cara popular” Ringo Mappuccino não perdiam a oportunidade de rir de um nerd. Principalmente ele, por causa de Sally. Num ato atípico, o nerd mentiu que Ringo queria os capangas presentes na lanchonete do Joe. Os rapazes não hesitaram e debandaram depressa do pátio em direção ao “Joe’s” da esquina. Usar melhor o cérebro era útil no mundo cão. E, para ficar sozinho ali, Francis aprendeu.
Ela me traiu? Está me traindo nesse exato momento? Por que ela não gostaria de mim? Não posso ser tão feio... Ela é uma garota tão preocupada com as notas, não é uma qualquer... Será que ela prefere mesmo o “Cappuccino”. – Síntese dos devaneios de Francis. Mesmo ciente do motivo pelo qual o pessoal zombava dele, não era capaz de enxergar os reais objetivos de Ringo.
Por isso ele começou a chorar. Ridículo... O modo que ele lacrimejava. Piscando sem parar e tentando fazer outra coisa para disfarçar a melancolia. Porém o exagero nos movimentos era revoltante: Ergueu a mochila para pegar um livro, sorteou uma apostila de concurso público enorme, secara os olhos com uma folha do caderno... O tipo de adolescente bem orientado. Até outros transeuntes na rua de trás da escola viam que Francis sentia-se péssimo. E o mais interessante é que o jovem olhava algumas das pessoas e elas não aparentavam felicidade também.
Lendo uma questão aleatória da apostila, Francis percebeu um enunciado com versos em prosa e teve uma idéia muito peculiar: Resolveu compor um poema romântico para dar a Sally. Pronto. Era aquilo que salvaria a relação deles. A garota gabava-se com suas amigas que homens geniais foram Shakespeare, Allan Poe, Pessoa... Van Gogh... Puxa, literatura era o seu único fraco no boletim. Não importa, o estudante armou-se com uma esferográfica: Num determinado momento perdeu inspiração, então foi até a Praça Jokebox. Num banquinho ali, terminou 16 versos de puro amor. Ficou tão bom que Francis até esqueceu-se de sua caneta, lembrando-se dela já perto de casa.
Hora de voltar a Jokebox outra vez para checar se a maravilha da caneta multi-tintas (objeto caro! Foram três moedas de 50 centavos nela!) permanecia onde deixara. Quando avistou o banco, preocupou-se: Um mendigo maltrapilho estava bem relaxado no acento, utilizando a caneta para anotar algo em sua mão. Tudo o que Francis não queria era mais um problema:
- Éééé... Olá, amigo. Mil desculpas, mas... Essa caneta que você usando é minha, e eu a deixei aqui sem querer minutos atrás, e... – Desafio ideal para nerds: explicar algo a um mendigo.
- Seu “sem querer” é igual a “eu esqueci”, menino? Posso concluir que você estava no meu banquinho favorito. Pois bem, se você me contar o que fez aqui, devolvo-lhe a caneta. – E o “pequeno” Goinita concluiu foi que aquele homem era racional demais para ser um indigente.
- Opa, bem... Fiquei aqui escrevendo uma carta e precisava de outros ares... Para ficar algo bom... – Um nervoso Francis só queria agora bater na mão do homem, pegar a caneta e correr.
- Uma carta, outros ares... A garota para quem você escrevia os versos é sua namorada?
Nisso, o que Francis iria fazer com aquele cara, que matou a mosca pelo pescoço, não era mais pedir a multi-tintas de volta. Era pedir de bônus um autógrafo do senhor mendigo.
- Me desculpe... Mas é incrível, você acertou!... Como vo... Como o senhor... Consegue?
- Tenho mais vivência e experiência com pessoas desde meus tempos de inclusão social. Hahaha! Eu estou velho, mas não estou nessa condição há séculos. – O homem possuía uma serenidade notável, não gaguejou ou pigarreou e ainda tinha dentes! Francis não sabia o que dizer a ele. Por medo de ser truque de um ladrão ou porque a inteligência do “excluído” era intimidadora.
- O jovem permite que eu leia o que escreveu para sua amada? – A frase apagou as suspeitas de Francis de o sujeito ter más intenções, a não ser que fosse um contratado de Ringo para... Não, não é para tanto. O rapaz achou o papel e entregou ao mendigo curioso.
Involuntariamente, Francis perdera os ouvidos quando olhou passando na calçada Sally e Ringo de mãos dadas. Ele ficou doido no ato. Assim correu de encontro ao casal coberto de raiva e de obstáculos: Eles já estavam bem distantes, não adiantando quase morrer atropelado atravessando a rua, mas os gritos que dera fizeram com que Ringo olhasse para trás e soltasse uma frase de desdém que Francis leu pelos lábios: “Você só perde, seu nerd”. O garoto retornou arrasado para a praça, e o morador de rua ficara parado ali mesmo com o papel na mão e a sentença pronta:
- Você escreve mal – O mendigo não aliviou, embora se dirigindo a uma cara de tacho – Talvez eu não entenda por que a mocinha não gosta de você, mas sei que com isto nada irá mudar.
- Minha mãe está certa... Ela está com ele. A quem eu quero enganar? Ele é mais popular e é mais boa pinta que eu. – Ao invés de chorar, Francis sentou no banco e falava bem lúcido, como se todo o mundo fizesse sentido para ele agora. Apenas o mendigo que o olhava preocupado:
- Ah, então você acha que o outro jovem é tudo isso mesmo? Porque não tenta namorá-lo também? Hahaha! Ouça rapaz, sabe qual é o segredo para uma pessoa se dar bem com outras?
O retorno silencioso previsível de Francis iniciou outra resposta:
- É dinheiro... Só isso. No tempo e no lugar em que vivemos, as pessoas se importam apenas com isso, não é mesmo? Quem está com sua amada agora tem boa condição de vida, suponho.
Francis assentiu com a cabeça. Disse que Mappuccino só situava-se num colégio público hoje porque fora indisciplinado demais nos grandes colégios onde estudou. O mendigo ouviu, entretanto, ficou absorto em um determinado pensamento que acompanhava a visão que sustentava a uma moça que andava muito apressada pela praça, segurando com força sua bolsa e olhando para os lados. Para chamar a atenção do homem, Francis disse o seu nome e perguntou o dele – Flood Fournier – e trabalhou como jardineiro grande parte da sua vida para a tradicional família Bolognazzi. Após 19 anos de serviços, o patriarca foi preso por ser envolvido com a máfia, e obviamente a casa jamais foi à mesma: A falecida senhora Bolognazzi vinha de uma família com várias posses também, permitindo que o único fruto do casal, a pequena München, fosse viver com os avós maternos sem prejuízos. O detalhe curioso da história é que no período entre os Bolognazzi perderem tudo e os tramites burocráticos de guarda da menina (o pai estava preso, não morto) passar para os pais de sua mãe, München morou nas ruas com Flood. Nunca pretendeu ficar num instituto de órfãos por um mínimo de tempo. Assim, depois da desapropriação da mansão Bolognazzi, viu Flood indo embora e resolveu o seguir ao invés de ficar com a governanta. Descobrindo que ele não tinha lugar nenhum para ir, resolveu dividir sua tristeza com ele. Dos nove aos doze anos, conheceu o mundo com a visão cheia de poeira urbana. Tudo isso foi a desculpa de Francis para dona Beulah quando chegou em casa às dezoito horas naquele dia... A mãe aceitou.
-... Bom dia, senhor Francis! Gostou tanto assim de falar com esse velho? – Surpreendeu-se Flood com a aproximação do estudante no despertar do dia seguinte.
- Tomei café e resolvi vir conversar já que não tenho nada para fazer... O senhor já comeu hoje? – Questionou uma pessoa preocupada. Francis via no mendigo alguém bem confiável.
- Sim! Não se preocupe, ontem guardei duas moedas das minhas perambulações por esmolas e já fiz minha média com a padaria... Literalmente. Hahaha! – Disse o contente indigente.
Goinita não conseguia assimilar como Fournier vivia rindo mesmo necessitando constantemente matar mais de um leão por dia. O que o abalava? Uma outra pergunta veio no lugar:
- Senhor Flood, München gostou de... Viver com o senhor como... Mendiga? – Francis imaginou a bomba que saiu da sua boca naquele momento. Essa pergunta iria desestabilizá-lo.
- Ela nem viveu muito... Mas o pouco que o fez, gostou. – emendou calmamente Flood.
- Perdão, como assim? – Francis sentou no chão sujo da praça e preparou-se para ouvir:
- (suspiro) Quando nos deparamos com a rua, tratei de pôr minhas economias para sustentar München. Não deixaria a garota passar fome, uma vez que eu era o empregado que ela mais gostava e também por ser eternamente grato a mãe dela pelo emprego, iria cuidar até que a pegassem. Os tempos iniciais foram difíceis, obviamente. Dormir ao relento ou nos abrigos é muito triste, mas todos se adaptam... Porém foi só aquecimento perto do que ocorreu mais tarde: Surgiu uma doença rendendo München. Rumamos para uma fila de hospital público... Uma semana depois, conseguimos que um médico nos visse graças à apresentação da certidão de nascimento dela, uma Bolognazzi acima de tudo e de todos. München chorou quando o médico diagnosticou o problema: Imfoma de Hogkind. Uma febre permanente que debilita a pessoa em um período de tempo, e num outro, some... E volta de surpresa com a mesma alta intensidade de outrora. Bem... Os remédios necessários foram o suficiente para a menina desenvolver algo pior que o tal Imfoma.
Fournier percebeu a dúvida que brotara do olhar de Francis. Ora, München não era viva?
- Foi desenvolvida a solidão urbana nela, Francis. – Flood deu um enorme suspiro, ia continuar – Eu gastei metade do dinheiro nos inúmeros remédios que München devia tomar para controlar o tempo de inatividade da febre, um trabalho muito rigoroso com horários, dosagens... Tratar enquanto criança é ruim. München queria que os pedestres nos ajudassem... Mas sentada com um cobertor na sarjeta, ninguém dava uma cédula: As pessoas olhavam apressadas para a menina, sentiam dó... Mas nem reparavam no riso dela caso jogassem uma moeda no copo. Ninguém tem tempo para nada com a doença da pressa, a epidemia do trabalho cego. O salário ganho é tão cego quanto o dia-a-dia. (suspiro) Então, quando as coisas tendiam a piorar para ela e para mim, a polícia chegou. Calma! Foi para nos levar ao juizado de menores onde o avô de München a aguardava. Nossa despedida foi lacrimosa, sim. Nós salvamos a vida um do outro... Somos grandes amigos, Francis. O chato é que não sou o melhor amigo dela... E nem o conheço. Ruby é um ser imaginário.
- Caramba! Muitos remédios para febres em crianças dão nisso... Alucinações! Como você diz que ela sofre de solidão urbana? Foi gerada uma hipocondria! – Francis sabia que deduziu muito bem. E a cara compreensiva de Fournier ratificou suas palavras, mas levantou a voz:
- Receio que não vai se importar caso eu lhe convide para ver München amanhã à noite. Certo, senhor Francis? – Supôs Flood, ciente que o garoto ficaria muito desestabilizado.
- Não acredito! Vocês ainda se falam?... Quero dizer, ela vem aqui ver o senhor? – A informação desconcertou Francis, uma moça rica abraçando um mendigo era inimaginável.
- Puxa, faz três anos que aconteceu. Ela é uma bela menina de quinze anos que até hoje insiste para que eu cuide das plantas de sua avó numa chácara, mas... Se você vier amanhã, saberá o porquê da minha preferência pelas ruas. – Flood praticamente intimou o jovem a ir à praça de novo.
Francis foi dormir ansioso demais. Não conseguia ver München e Flood juntos nem tentar pensar no que se tornou a vida deles ao irem morar na calçada. Que insano! Ele queria estar totalmente envolvido com a história de um indigente que qualquer pessoa era incapaz de olhar por um segundo! Agora Francis não queria admitir que, dias atrás, ele também era assim. Caiu à noite do dia seguinte, e Francis aprontou-se para ir a Jokebox. Cinco minutos, viu Flood surgindo com uma marmita na mão e o visual largado e cinza que se acostumara. Bastava aguardar o carro de München agora. De boca cheia, Flood avisou que o carro dela aproximava-se... O veículo parou do lado da avenida, e a dupla reparou na garota conversar com o motorista para depois ver o carro se afastar do local. München atravessou correndo e jogou-se em Flood num enorme abraço:
- FLOOD! VOCÊ VEM COMIGO HOJE! – A garota nem notou Francis ali, então Flood usou o argumento das apresentações para livrar a jovem do seu “cheiro natural urbano”.
- München, pegue. Achou que eu iria esquecer? – Flood sacou de um bolso três pílulas. Eram os remédios da febre. Francis não acreditou que o homem fizera aquilo... Dera medicamentos pesados a uma pessoa curada. Começou a balançar a cabeça negativamente no instante em que a adolescente foi a uma bica da praça e bebeu água para engolir as drágeas.
- RUBY! Que saudades eu tive de você... Um mês é muito sem te ver! Francis... Quero que conheça Ruby, a melhor companhia que alguém poderia ter. – München falava de olhos fechados - Ruby, vamos conversar sobre um jeito de levar Flood comigo! – A garota não parecia estar chapada, carregava uma felicidade indecifrável no rosto, sim. Mas era uma face inspiradora.
- Eu ainda tinha alguns comprimidos antes dela partir, ela estava quase curada quando nos despedimos... Sinceramente, só o mal da carência de amizade é o que preocupava a mim. Ela nunca fora a escola, Francis... Tinha uma professora particular. Não sabia o que era ter amigos... Bem, afinal de contas, quantos no nosso mundo sabem, não é mesmo? – Flood deu uma piscadinha ao garoto, admirando uma München feliz, deitada no banco, parecendo estar sonhando eternamente.
No dia seguinte, Francis soube da prisão do pai de Ringo devido a problemas com a justiça. E viu o “bambino popular” discutir ferozmente com Sally “sorriso metálico” no Joe’s. É... Antes acompanhado dos próprios sonhos do que sentir-se sozinho entre pessoas e interesses. A sociedade é um universo, assim nem todos ficam no mesmo mundo.
- A senhora me contando uma mentira dessas. Por que, mãe?
- Essa pergunta é minha! Filho, essa Sally não pres... Serve para você! Já te falei isso!
O jovem recusou-se a olhar para sua genitora. Sempre passou por desilusões amorosas desde que se entendia por gente (coisa de uns dois anos) e não iria admitir que Sally não gostasse dele de verdade. Ora, ele a ajudava em todas as provas do colégio... Geralmente fazendo o seu exame com o nome dela e depois trocando com a folha da sua amada na carteira da frente, Sally provavelmente se encantou por todas aquelas “provas de amor”. Mas o pensamento foi desarmado pela intuição de mãe pertencente à Beulah:
- Você é ingênuo, filho... Tão esperto para assuntos de escola, mas tão desligado em comportamentos de vida. Acha que fazer as provas a conquistou? Só fez meu filho virar um escravo dela. – A mulher tentou abraçar Francis depois da declaração, mas não recebeu o retorno desejado.
O único herdeiro das dívidas da família Goinita tinha intenção de ir para a escola ler algum livro ou conversar com alguém, mas lembrou que a semana de provas permitia que os alunos fossem para a casa mais cedo. Ou seja, já tinha ido para lá naquele dia, mas não queria admitir. O colégio era muito mais acolhedor para aquele cara estudioso do que o próprio lar. Depois de atravessar a avenida antes do edifício escolar, Francis acabou trombando numa pessoa apressada e derrubou a bolsa alheia. Apesar de prontificar-se a recolher o que caiu, o homem impediu a ação dele com um gesto educado, repôs tudo de qualquer jeito e foi-se. Nem olhou para o garoto.
- Olha só quem está vindo! O amor da sorriso metálico! Já podemos zombar de alguém hoje! – Definitivamente, Francis chegou ao seu colégio. Os amigos do “cara popular” Ringo Mappuccino não perdiam a oportunidade de rir de um nerd. Principalmente ele, por causa de Sally. Num ato atípico, o nerd mentiu que Ringo queria os capangas presentes na lanchonete do Joe. Os rapazes não hesitaram e debandaram depressa do pátio em direção ao “Joe’s” da esquina. Usar melhor o cérebro era útil no mundo cão. E, para ficar sozinho ali, Francis aprendeu.
Ela me traiu? Está me traindo nesse exato momento? Por que ela não gostaria de mim? Não posso ser tão feio... Ela é uma garota tão preocupada com as notas, não é uma qualquer... Será que ela prefere mesmo o “Cappuccino”. – Síntese dos devaneios de Francis. Mesmo ciente do motivo pelo qual o pessoal zombava dele, não era capaz de enxergar os reais objetivos de Ringo.
Por isso ele começou a chorar. Ridículo... O modo que ele lacrimejava. Piscando sem parar e tentando fazer outra coisa para disfarçar a melancolia. Porém o exagero nos movimentos era revoltante: Ergueu a mochila para pegar um livro, sorteou uma apostila de concurso público enorme, secara os olhos com uma folha do caderno... O tipo de adolescente bem orientado. Até outros transeuntes na rua de trás da escola viam que Francis sentia-se péssimo. E o mais interessante é que o jovem olhava algumas das pessoas e elas não aparentavam felicidade também.
Lendo uma questão aleatória da apostila, Francis percebeu um enunciado com versos em prosa e teve uma idéia muito peculiar: Resolveu compor um poema romântico para dar a Sally. Pronto. Era aquilo que salvaria a relação deles. A garota gabava-se com suas amigas que homens geniais foram Shakespeare, Allan Poe, Pessoa... Van Gogh... Puxa, literatura era o seu único fraco no boletim. Não importa, o estudante armou-se com uma esferográfica: Num determinado momento perdeu inspiração, então foi até a Praça Jokebox. Num banquinho ali, terminou 16 versos de puro amor. Ficou tão bom que Francis até esqueceu-se de sua caneta, lembrando-se dela já perto de casa.
Hora de voltar a Jokebox outra vez para checar se a maravilha da caneta multi-tintas (objeto caro! Foram três moedas de 50 centavos nela!) permanecia onde deixara. Quando avistou o banco, preocupou-se: Um mendigo maltrapilho estava bem relaxado no acento, utilizando a caneta para anotar algo em sua mão. Tudo o que Francis não queria era mais um problema:
- Éééé... Olá, amigo. Mil desculpas, mas... Essa caneta que você usando é minha, e eu a deixei aqui sem querer minutos atrás, e... – Desafio ideal para nerds: explicar algo a um mendigo.
- Seu “sem querer” é igual a “eu esqueci”, menino? Posso concluir que você estava no meu banquinho favorito. Pois bem, se você me contar o que fez aqui, devolvo-lhe a caneta. – E o “pequeno” Goinita concluiu foi que aquele homem era racional demais para ser um indigente.
- Opa, bem... Fiquei aqui escrevendo uma carta e precisava de outros ares... Para ficar algo bom... – Um nervoso Francis só queria agora bater na mão do homem, pegar a caneta e correr.
- Uma carta, outros ares... A garota para quem você escrevia os versos é sua namorada?
Nisso, o que Francis iria fazer com aquele cara, que matou a mosca pelo pescoço, não era mais pedir a multi-tintas de volta. Era pedir de bônus um autógrafo do senhor mendigo.
- Me desculpe... Mas é incrível, você acertou!... Como vo... Como o senhor... Consegue?
- Tenho mais vivência e experiência com pessoas desde meus tempos de inclusão social. Hahaha! Eu estou velho, mas não estou nessa condição há séculos. – O homem possuía uma serenidade notável, não gaguejou ou pigarreou e ainda tinha dentes! Francis não sabia o que dizer a ele. Por medo de ser truque de um ladrão ou porque a inteligência do “excluído” era intimidadora.
- O jovem permite que eu leia o que escreveu para sua amada? – A frase apagou as suspeitas de Francis de o sujeito ter más intenções, a não ser que fosse um contratado de Ringo para... Não, não é para tanto. O rapaz achou o papel e entregou ao mendigo curioso.
Involuntariamente, Francis perdera os ouvidos quando olhou passando na calçada Sally e Ringo de mãos dadas. Ele ficou doido no ato. Assim correu de encontro ao casal coberto de raiva e de obstáculos: Eles já estavam bem distantes, não adiantando quase morrer atropelado atravessando a rua, mas os gritos que dera fizeram com que Ringo olhasse para trás e soltasse uma frase de desdém que Francis leu pelos lábios: “Você só perde, seu nerd”. O garoto retornou arrasado para a praça, e o morador de rua ficara parado ali mesmo com o papel na mão e a sentença pronta:
- Você escreve mal – O mendigo não aliviou, embora se dirigindo a uma cara de tacho – Talvez eu não entenda por que a mocinha não gosta de você, mas sei que com isto nada irá mudar.
- Minha mãe está certa... Ela está com ele. A quem eu quero enganar? Ele é mais popular e é mais boa pinta que eu. – Ao invés de chorar, Francis sentou no banco e falava bem lúcido, como se todo o mundo fizesse sentido para ele agora. Apenas o mendigo que o olhava preocupado:
- Ah, então você acha que o outro jovem é tudo isso mesmo? Porque não tenta namorá-lo também? Hahaha! Ouça rapaz, sabe qual é o segredo para uma pessoa se dar bem com outras?
O retorno silencioso previsível de Francis iniciou outra resposta:
- É dinheiro... Só isso. No tempo e no lugar em que vivemos, as pessoas se importam apenas com isso, não é mesmo? Quem está com sua amada agora tem boa condição de vida, suponho.
Francis assentiu com a cabeça. Disse que Mappuccino só situava-se num colégio público hoje porque fora indisciplinado demais nos grandes colégios onde estudou. O mendigo ouviu, entretanto, ficou absorto em um determinado pensamento que acompanhava a visão que sustentava a uma moça que andava muito apressada pela praça, segurando com força sua bolsa e olhando para os lados. Para chamar a atenção do homem, Francis disse o seu nome e perguntou o dele – Flood Fournier – e trabalhou como jardineiro grande parte da sua vida para a tradicional família Bolognazzi. Após 19 anos de serviços, o patriarca foi preso por ser envolvido com a máfia, e obviamente a casa jamais foi à mesma: A falecida senhora Bolognazzi vinha de uma família com várias posses também, permitindo que o único fruto do casal, a pequena München, fosse viver com os avós maternos sem prejuízos. O detalhe curioso da história é que no período entre os Bolognazzi perderem tudo e os tramites burocráticos de guarda da menina (o pai estava preso, não morto) passar para os pais de sua mãe, München morou nas ruas com Flood. Nunca pretendeu ficar num instituto de órfãos por um mínimo de tempo. Assim, depois da desapropriação da mansão Bolognazzi, viu Flood indo embora e resolveu o seguir ao invés de ficar com a governanta. Descobrindo que ele não tinha lugar nenhum para ir, resolveu dividir sua tristeza com ele. Dos nove aos doze anos, conheceu o mundo com a visão cheia de poeira urbana. Tudo isso foi a desculpa de Francis para dona Beulah quando chegou em casa às dezoito horas naquele dia... A mãe aceitou.
-... Bom dia, senhor Francis! Gostou tanto assim de falar com esse velho? – Surpreendeu-se Flood com a aproximação do estudante no despertar do dia seguinte.
- Tomei café e resolvi vir conversar já que não tenho nada para fazer... O senhor já comeu hoje? – Questionou uma pessoa preocupada. Francis via no mendigo alguém bem confiável.
- Sim! Não se preocupe, ontem guardei duas moedas das minhas perambulações por esmolas e já fiz minha média com a padaria... Literalmente. Hahaha! – Disse o contente indigente.
Goinita não conseguia assimilar como Fournier vivia rindo mesmo necessitando constantemente matar mais de um leão por dia. O que o abalava? Uma outra pergunta veio no lugar:
- Senhor Flood, München gostou de... Viver com o senhor como... Mendiga? – Francis imaginou a bomba que saiu da sua boca naquele momento. Essa pergunta iria desestabilizá-lo.
- Ela nem viveu muito... Mas o pouco que o fez, gostou. – emendou calmamente Flood.
- Perdão, como assim? – Francis sentou no chão sujo da praça e preparou-se para ouvir:
- (suspiro) Quando nos deparamos com a rua, tratei de pôr minhas economias para sustentar München. Não deixaria a garota passar fome, uma vez que eu era o empregado que ela mais gostava e também por ser eternamente grato a mãe dela pelo emprego, iria cuidar até que a pegassem. Os tempos iniciais foram difíceis, obviamente. Dormir ao relento ou nos abrigos é muito triste, mas todos se adaptam... Porém foi só aquecimento perto do que ocorreu mais tarde: Surgiu uma doença rendendo München. Rumamos para uma fila de hospital público... Uma semana depois, conseguimos que um médico nos visse graças à apresentação da certidão de nascimento dela, uma Bolognazzi acima de tudo e de todos. München chorou quando o médico diagnosticou o problema: Imfoma de Hogkind. Uma febre permanente que debilita a pessoa em um período de tempo, e num outro, some... E volta de surpresa com a mesma alta intensidade de outrora. Bem... Os remédios necessários foram o suficiente para a menina desenvolver algo pior que o tal Imfoma.
Fournier percebeu a dúvida que brotara do olhar de Francis. Ora, München não era viva?
- Foi desenvolvida a solidão urbana nela, Francis. – Flood deu um enorme suspiro, ia continuar – Eu gastei metade do dinheiro nos inúmeros remédios que München devia tomar para controlar o tempo de inatividade da febre, um trabalho muito rigoroso com horários, dosagens... Tratar enquanto criança é ruim. München queria que os pedestres nos ajudassem... Mas sentada com um cobertor na sarjeta, ninguém dava uma cédula: As pessoas olhavam apressadas para a menina, sentiam dó... Mas nem reparavam no riso dela caso jogassem uma moeda no copo. Ninguém tem tempo para nada com a doença da pressa, a epidemia do trabalho cego. O salário ganho é tão cego quanto o dia-a-dia. (suspiro) Então, quando as coisas tendiam a piorar para ela e para mim, a polícia chegou. Calma! Foi para nos levar ao juizado de menores onde o avô de München a aguardava. Nossa despedida foi lacrimosa, sim. Nós salvamos a vida um do outro... Somos grandes amigos, Francis. O chato é que não sou o melhor amigo dela... E nem o conheço. Ruby é um ser imaginário.
- Caramba! Muitos remédios para febres em crianças dão nisso... Alucinações! Como você diz que ela sofre de solidão urbana? Foi gerada uma hipocondria! – Francis sabia que deduziu muito bem. E a cara compreensiva de Fournier ratificou suas palavras, mas levantou a voz:
- Receio que não vai se importar caso eu lhe convide para ver München amanhã à noite. Certo, senhor Francis? – Supôs Flood, ciente que o garoto ficaria muito desestabilizado.
- Não acredito! Vocês ainda se falam?... Quero dizer, ela vem aqui ver o senhor? – A informação desconcertou Francis, uma moça rica abraçando um mendigo era inimaginável.
- Puxa, faz três anos que aconteceu. Ela é uma bela menina de quinze anos que até hoje insiste para que eu cuide das plantas de sua avó numa chácara, mas... Se você vier amanhã, saberá o porquê da minha preferência pelas ruas. – Flood praticamente intimou o jovem a ir à praça de novo.
Francis foi dormir ansioso demais. Não conseguia ver München e Flood juntos nem tentar pensar no que se tornou a vida deles ao irem morar na calçada. Que insano! Ele queria estar totalmente envolvido com a história de um indigente que qualquer pessoa era incapaz de olhar por um segundo! Agora Francis não queria admitir que, dias atrás, ele também era assim. Caiu à noite do dia seguinte, e Francis aprontou-se para ir a Jokebox. Cinco minutos, viu Flood surgindo com uma marmita na mão e o visual largado e cinza que se acostumara. Bastava aguardar o carro de München agora. De boca cheia, Flood avisou que o carro dela aproximava-se... O veículo parou do lado da avenida, e a dupla reparou na garota conversar com o motorista para depois ver o carro se afastar do local. München atravessou correndo e jogou-se em Flood num enorme abraço:
- FLOOD! VOCÊ VEM COMIGO HOJE! – A garota nem notou Francis ali, então Flood usou o argumento das apresentações para livrar a jovem do seu “cheiro natural urbano”.
- München, pegue. Achou que eu iria esquecer? – Flood sacou de um bolso três pílulas. Eram os remédios da febre. Francis não acreditou que o homem fizera aquilo... Dera medicamentos pesados a uma pessoa curada. Começou a balançar a cabeça negativamente no instante em que a adolescente foi a uma bica da praça e bebeu água para engolir as drágeas.
- RUBY! Que saudades eu tive de você... Um mês é muito sem te ver! Francis... Quero que conheça Ruby, a melhor companhia que alguém poderia ter. – München falava de olhos fechados - Ruby, vamos conversar sobre um jeito de levar Flood comigo! – A garota não parecia estar chapada, carregava uma felicidade indecifrável no rosto, sim. Mas era uma face inspiradora.
- Eu ainda tinha alguns comprimidos antes dela partir, ela estava quase curada quando nos despedimos... Sinceramente, só o mal da carência de amizade é o que preocupava a mim. Ela nunca fora a escola, Francis... Tinha uma professora particular. Não sabia o que era ter amigos... Bem, afinal de contas, quantos no nosso mundo sabem, não é mesmo? – Flood deu uma piscadinha ao garoto, admirando uma München feliz, deitada no banco, parecendo estar sonhando eternamente.
No dia seguinte, Francis soube da prisão do pai de Ringo devido a problemas com a justiça. E viu o “bambino popular” discutir ferozmente com Sally “sorriso metálico” no Joe’s. É... Antes acompanhado dos próprios sonhos do que sentir-se sozinho entre pessoas e interesses. A sociedade é um universo, assim nem todos ficam no mesmo mundo.
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obs.: Em "München" leia "Monique" ;)
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smashing pumpkins - stumbleine
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