terça-feira, 9 de novembro de 2010

PRESENÇA

11/01/2010 - Querido Papai Noel,
Eu ainda continuo triste por não ter ganhado uma bicicleta no Natal. Meu pai disse que a culpa foi minha porque não escrevi uma carta para você. Mas eu sei que foi porque, na verdade, não fui um menino bondoso o ano inteiro. Muito bem, hoje estou escrevendo ao senhor e declarando que mudarei meu comportamento ‘rebelde’ a partir do instante em que selarei esta carta. Prometo também que tentarei comunicar ao senhor a cada mês o que acontece por aqui (para o senhor ter certeza que é verdade, minhas cartas serão lidas e assinadas pela minha mãe). Está certo? Espero que o senhor esteja bem... Já sonho lá na frente – em dezembro – andando na minha bike. Gostaria de poder escrever meu nome, mas há chances de essa carta ser extraviada e até divulgada à imprensa. E já que eles não divulgam o nome de menores em más condições de vida... Não me interessa saber como é a vergonha que eles sentem. Sei que o senhor sabe quem eu sou. Ora, o senhor é capaz de voar com renas! Ao menos, espero ter não errado nada de ortografia para não deixar má impressão. Abraços, ‘Xis’.



12/02/2010 - Querido Papai Noel,
Eu quase fraquejei na minha promessa: Após terminar a 1ª carta, meu pai chegou bêbado em casa – o time dele havia vencido o 1º jogo do campeonato – e muito sujo. Minha mãe e ele iniciaram uma discussão enorme e que terminou empatada... Enquanto eles brigavam, o ‘velho’ pegou o envelope e limpou a boca com ele! Era o único! Depois disso, só lembro que eu dei um soco tão forte na barriga dele que expulsei toda a tristeza acumulada que tinha... Pelo meu pai nunca ter me levado para passear, sempre preferir o bar em vez de seus empregos (quem sabe ele ajudaria o senhor, sendo o ‘doador’ da minha bicicleta?) e – claro - por ter me ensinado que só se resolve problemas com pessoas assim: dando pancada. Só agora vejo que isso é errado (minha mão ainda dói). Já a mãe aprovou o que fiz (pus o velho para dormir naquele dia e curar a ressaca) e falou que eu não precisava confessar meu erro ao senhor. Mas se meu pai não ensinou nada sobre sinceridade, então ser franco aqui é a melhor atitude que posso tomar. Ah, as férias acabaram e estou estudando! Abraços, ‘Xis’.



13/03/2010 – Prezado Papai Noel,
O senhor acha que as minhas mensagens estão exageradas? Outra vez, a mãe me aconselhou a parar de chamar o senhor de ‘querido’ e evitar falar ‘eu’... Segundo ela, o senhor irá achar que eu sou ‘carente’ demais e não fica legal – mesmo morando na favela mais miserável da cidade. Mas não entendo: Até acho que as minhas cartas são curtas (pois entendo que você deve ler infinitas correspondências de outras crianças... Precisa economizar tempo). Falei com o meu tio sobre isso, mas ele só riu e me apoiou a fazer o que EU posso para ganhar a bike... E claro, confiar nas boas intenções do senhor (“a sua mãe assiste noticiário sensacionalista demais”). É esse irmão da minha mãe que estará assinando este mês. Certo? Continuo sendo um bom garoto em casa e na escola. Aliás, estou apaixonado pela garota mais bonita da sala e pretendo me declarar. Meus amigos riram quando falei... Tem alguma regra do senhor que me deixe pedir duas bicicletas de Natal (para ela e eu andarmos juntos)? Abraços, ‘Xis’.



14/04/2010 - Prezado Papai Noel,
Embora o meu aniversário esteja chegando (daqui a uma semana), já sei que o meu sonho da bicicleta não será antecipado: Todo o mundo sabe onde a minha mãe esconde presentes para as suas “pessoas queridas” – parte alta do guarda-roupa – e meus pais me darão um boneco de um personagem de animação. O Joe Nice... Até assisto o desenho na TV, mas é muito comum ver crianças com coisas dele por aqui. Desde lancheiras até toalhas, o Nice é visto em todo lugar. O senhor o conhece? Disseram que, se o senhor trouxesse algum presente com ‘ele’ pra mim, provavelmente ele não seria “original”. Mesmo quase com 11 anos de vida, não entendi bem. Não importa: a missão de trazer a bike ainda é do senhor! (risos) De qualquer jeito, ver esse boneco foi bom: É a prova que minha família já me considera um menino melhor. A garota a quem me declarei na escola riu de mim, mas admirou minha coragem. Esperança? Abraços, ‘Xis’.



15/05/2010 - Prezado Papai Noel,
Vem acontecendo muitas ações estranhas aqui na favela... Tanto que não devo mais chamá-la de ‘favela’, e sim “Comunidade”. Vem vindo muita gente de terno e gravata pra cá e há uns palcos nos vários pontos planos do Complexo onde eles gritam no microfone palavras como “igualdade”, “dignidade”, “honestidade” e “comunidade”... Segundo meu pai, são essas pessoas que cuidam da gente. Mas não posso acreditar, já que ele estava de ressaca após ter sido convidado a tomar “um copinho só” - por um dos engravatados. Ele falou isso tão feliz que eu fiquei assustado. Falando no meu velho, quando ele me viu brincando com o boneco Joe Nice, aproveitei a chance para dizer um ‘obrigado’ sincero. Ele ignorou (“se você crescesse mais rápido, já trabalharia para pagar logo o preço absurdo que foi isso!”). Como é que o senhor ganha tanto dinheiro para realizar todos os pedidos, hein Papai Noel? As lojas te dão mais desconto ou o senhor é, de verdade, o criador de todos os brinquedos? Abraços, ‘Xis’.



16/06/2010 - Prezado Papai Noel,
Começou a Copa do Mundo de Futebol! O senhor está torcendo para qual país? Todo mundo aqui já comemorou ao máximo a 1ª vitória do Brasil (que foi ontem). Principalmente o meu pai... Ele esvaziou todos os copos que viu pela frente após o jogo. Conclusão: A briga dele com a mamãe foi feia! Todos os nossos vizinhos já sabem que ele tem um sério problema de saúde. Sério, sério. Parece que o álcool o transforma no homem mais poderoso do mundo: ele mexe com o dono do bar, com os amigos, grita, esperneia, gargalha, pula... E quando cai em si (depois que dorme e acorda), fica um cara calminho e sem muitas palavras. Não pense mal dele, Papai Noel, ele não teve sossego quando criança... Meu avô sempre disse para “suar mais e ler menos” ao seu filho. 12 garrafas de cerveja libertam mais conhecimento e ousadia nele do que qualquer “puxão de orelha” da minha mãe. Eu me acho bem inteligente – e modesto (risos). Falando sério, não sei mesmo a quem puxei. Voltando a falar de Copa... Um professor contou que o senhor mora na Finlândia, um país frio e que não está disputando o Mundial. É verdade? O senhor se importa com futebol assim como nós? Abraços, ‘Xis’.



17/07/2010 - Prezado Papai Noel,
Tenho uma péssima notícia para dar... Antes que o senhor imagine “a notícia é que o Brasil não ganhou a Copa, isso eu já sabia”, não é nada disso, mesmo: Meu pai bateu na minha mãe após uma discussão sobre a bebida. Obviamente, eles se separaram... Ele foi para a cadeia e ela para o hospital público mais próximo daqui. Ele havia entrado numa “paranóia corrosiva” (ouvi isso na TV e achei parecido com a situação) desde a derrota da seleção para a Holanda, Papai Noel. Não parava quieto em casa, chorava direto e descia o morro para comprar aguardente todo dia! Segundo o meu pai, “a vida não faz mais sentido, porque todos nós somos perdedores”. Mas se 11 homens do meu país perdem no futebol, a culpa é dividida até aos torcedores? Caso seja, realmente o senhor não poderá me presentear com a bike... Pois eu também agi errado, então tudo custou o troféu para o Brasil. De qualquer modo... A briga fatal deles foi há três dias e foi ruim demais assistir tudo aquilo. O meu tio falou - depois de levar o meu pai à delegacia - o seguinte: “Infelizmente, o que nunca irá deixar a gente é a pobreza...” – Foi bom ‘aprender’ isso. Não estou triste não, acho que a prisão será boa para ele. Espero que, quando a garota da escola querer me namorar, nós não briguemos como meus pais. Assim, não quero ficar ‘abastecido’ quando crescer! Abraços, ‘Xis’.



18/08/2010 - Prezado Papai Noel,
Os caras engravatados voltaram a aparecer aqui no Complexo com mais frequência. Aliás, alguns primos meus mais velhos (que não moram por aqui, mas em outros pontos do subúrbio) disseram que um deles era o senhor! Sim! Parece que o senhor já deu presentes a eles há quatro anos! Puxa, mesmo ficando feliz com isso, crio uma dúvida na cabeça: O senhor não usava apenas aquela roupa vermelha? Nunca vi uma foto do Papai Noel vestido como patrão... Por favor, Papai Noel, responda esta carta de agosto o quanto antes, senão eu acho que não irei dormir daqui pra frente. Voltando aos caras de gravata: todos eles só falam em cima de um palanque e só ouvem quando abraçam ou apertam a mão das pessoas daqui. Pelo jeito que alguns vizinhos gritam seus nomes, devem ser homens próximos de Deus... Ora, venho ouvindo as palavras “salvação” e “solução” sem parar. Estou ficando bem assustado. Abraço, ‘Xis’.



19/09/2010 - Prezado Papai Noel,
Por que ainda não respondeu a minha carta?! O senhor prometeu! Nos encontramos há 19 dias num morro da cidade e você estava bem barbudo e de terno! Disse que iria ler as minhas cartas e escrever de volta... Como o senhor quer que eu acredite no senhor agora? Já falei à minha mãe e aos meus tios para fazerem aquilo que pediu (digitarem aquele número do papelzinho no dia das Eleições). Até pedi ao meu pai - ainda na cadeia – para levar aquilo à urna. Eu posso ser criança, mas já detesto ser enganado por alguém, Papai Noel. Estou tentando ao máximo ser um bom garoto, mas confesso que vinha esperando um retorno de incentivo após oito cartas! Agora eu me pergunto: O que acontece se vários adultos colocarem o seu número nas urnas? Você será ‘eleito’, certo? Significa que o senhor poderá dar mais atenção a quem se importou com o seu número? Pronto. Há três novas perguntas aí para me responder. Junte aí na sua conta. Se quiser falar comigo pessoalmente, irei ao Morro de novo. Até logo, ‘Xis’.



20/10/2010 - Papai Noel,
Não tem explicação para o vexame que o senhor me fez passar no dia das crianças (12/10): Além de ter presenteado com uma bicicleta apenas a garota que eu queria namorar (ela não é órfã de pai e a mãe não é alcoólatra! Ela só sente inveja das vizinhas ciclistas), você me levou ao palanque onde falava abobrinhas e quando me deu o microfone, para eu dizer meu maior desejo, você o toma de mim rapidamente após ouvir a verdade? O senhor é mesmo um mentiroso! Já que sempre eu sou ignorado por minhas cartas, acho que mandarei várias por dia agora e torcerei que sua casa fique entupida de papel. Quem sabe o senhor começa a se importar com as árvores - seres mais inocentes do que eu... As eleições já acabaram e espero que você não ganhe um trabalho de ‘político’, não no meu país. Volte logo para a sua Finlândia, Groenlândia... Deixe os brasileiros em paz! A última coisa que precisamos é de gente falsa. Até, ‘Xis’.



21/11/2010 - Noel,
Você está aparecendo ultimamente em todos os jornais (iria terminar a frase com uma pergunta, mas já que você nunca responde nada)... – é uma pena que meus familiares tentam esconder ao máximo a notícia sobre o senhor de mim. Bem, eles tentam e conseguem. Mas se você está ocupando a maioria das primeiras páginas, no lugar das fotos sobre futebol e dos sorrisos dos artistas, significa que o senhor fez alguma coisa errada... O sujeito apresentador do jornal mostrou uma foto sua num fundo cinza... Minha mãe disse para ir brincar lá fora e não ver a notícia. Enfim... Quer saber? (“claro que não”) – Não estou mais aí para você ou o presente. Graças a minha ‘promessa’ de ser alguém mais comportado, estou com notas melhores na escola e muitos elogios das pessoas. Se eu continuar bom aluno, ficarei rico e comprarei quantas bicicletas quiser. Vai demorar, mas não precisarei mais ter fé em você. Até, ‘Xis’.



22/12/2010 - Prezado Papai Noel,
Desculpe-me se por um instante eu senti ódio do senhor... Fiquei sabendo que havia um cara, muito parecido com o senhor, que queria ser político e... Ele foi preso no início do mês, condenado por uma causa chamada de ‘corrupção’. Minha mãe disse que isso é um dos piores crimes existentes e se ele fosse mesmo Papai Noel nunca iria fazer corrupção. Por isso, acredito que os carteiros dos Correios enviavam todas as cartas que mandei, no ano inteiro, para esse cara... Porque também se confundiram como eu (o senhor e ele são realmente idênticos). Bom, desde janeiro, vinha sonhando por uma bicicleta e estava “enchendo o seu saco” por ela todo mês. Porém, minha família fez uma vaquinha – e com nossos vizinhos dum morro aqui no Rio de Janeiro - e eu recebi uma bike linda de presente há dois dias. Se não fosse meu esforço para consegui-la, não a teria. E meu esforço foi motivado pela sua bondade em dar presentes aos outros. Se o senhor tinha uma bicicleta reservada pra mim, por favor, dê para uma pessoa tão pobre quanto eu era. Creio que agora o senhor receberá essa carta, então... Obrigado por tudo, Papai Noel. Feliz Natal! Abraços. ‘Xis’.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

EL JABÁ NA CRISE: COMO VIVER E (NÃO) CONVIVER COM ELE

Alguém duvida que a Indústria fonográfica irá terminar sua travessia - pela primeira década do século XXI - com os piores índices de vendagens já registrados? É fato que atribuir culpados, a essa altura da Globalização, praticamente não remediará déficit algum; o mercado consumidor dispõe de inúmeros recursos para usufruir de música. Há cerca de quinze anos atrás, a única preocupação das grandes gravadoras eram, ainda, as fitas K7 “puras”, que conseguiam filtrar as canções de sucesso tocadas nas rádios... Os artistas e seus empresários primavam pela qualidade dos discos físicos em todos os quesitos possíveis (composição, arranjos, produção, divulgação e encarte), participando do processo incisivamente junto aos executivos das corporações majors e, não obstante, os seus selos musicais subsidiários.

Contudo, graças à viabilidade de se adquirir um microcomputador em nossos tempos, a Internet conseguiu se disseminar entre as atividades cotidianas da sociedade. E com a sua importância indiscutível, mesmo o fenômeno nocivo da Pirataria de CDS (“tendência” do setor terciário informal que perdura desde o fim da década de 90) perdeu o seu espaço nos fluxos da economia: A população opta em buscar o material de seus ídolos via programas de compartilhamento (os famosos “downloads”) de arquivos, cujo sistema simples permite, até para os mais leigos em tecnologia, acharmos aquele tema da novela ou o primeiro lugar das paradas atuais. Aliás, é possível encontrar a discografia dos grupos de rock mais infames que a crítica já mencionara. O significado de música infelizmente tornou-se, para muitos, um prazer rápido; Uma sensação abreviada... O curioso é vermos que o nome dos arquivos de áudio puxado da Internet também é abreviado (“mp3”)...
Para os poucos que ainda gostam de comprar CDS e/ou DVDS, as portas se fecham numa velocidade inacreditável: Algumas lojas que, outrora, obtinham um faturamento expressivo com a venda dos artigos fonográficos, já se vêem tendo de manter seus serviços relevar a parte lucrativa relacionada ao setor de CDS. O motivo é óbvio: Quase todos os estabelecimentos que operavam apenas pelo comércio musical vieram à falência nos últimos seis ou sete anos; As razões da minoria consumidora de álbuns - ligadas a laços sentimentais, éticos, tradicionais etc. – são esmagadas pelo desinteresse de uma fatia correspondente a uns 80% da População Economicamente Ativa. Mas será apenas o fator “custo-benefício” que bloqueia o contato das massas com as mídias sonoras originais?


Sobretudo, fica mais conveniente se analisar, por hora, a redução da produção fonográfica pelos aspectos de marketing inerentes ao “cast” (o elenco de cantores e conjuntos) que as pertencem; a par dos tópicos jurídicos, que envolvem a Internet com crimes contra direitos autorais de músicos e outras burocracias: Uma vez que a Indústria está viva, devemos checar a conjuntura atual com olhos otimistas; enxergando um meio acessível tanto aos distribuidores quanto aos fornecedores: O exercício do apreço pela música aos seus clientes.

Afinal de contas, a Música é a forma de arte/expressão mais popular entre os seres humanos e, ultimamente, é perceptível a grande dimensão que outros tipos de Mídia (em especial, a impressa e a televisiva) dão à vida pessoal dos artistas mais conhecidos do país e do mundo; muitas vezes, o que o músico/intérprete produz em seu trabalho é ofuscado por algum escândalo, boato ou seus conflitos amorosos... Embora as estações de rádio na ativa ainda foquem no som acima de tudo, seus esforços de contribuir com as gravadoras não são mais tão efetivos; talvez seja pela “exploração da imagem” ou “exploração da música de trabalho"... Isso virá ao caso agora. Aqui neste blog.

Hoje, mensurar os valores do jabá é uma prática corriqueira entre as estações de rádio e as emissoras de TV. Os conceitos de qualidade e de quantidade musical caíram vertiginosamente, convergindo com os lucros da Indústria... Se o indivíduo dispôr de um empresário sagaz e um contrato com uma major, nem é necessário que ele tenha algum talento como compositor, com instrumentos ou um bom vocal; "manda a música de trabalho do(a) moço(a) embaixo de uma graninha que a gente toca!"


O nicho musical brasileiro hoje aparenta, aos olhos da massa, estar limitado apenas a nove ou dez nomes apenas (Não preciso dar nome aos bois: Basta lembrar aos caros leitores que duas cantoras, presentes nessa margem, possuem um timbre quase idêntico e tiveram bebês há pouco tempo hehehe). Ledo engano: Até mesmo o roqueiro mais underground ("peraí, eu?") reconhece a versatilidade da música nacional e como ela agrega artistas de excelência ímpar. O Repente da região Norte prova isso; O Manguebeat de Recife também... O sertanejo (DE RAÍZ! Não os fakes que vão nos programas domnicais bizarros, na nossa irritante TV aberta) do Centro-Oeste, a própria MPB (por favor, não confundir com Ana Carolina ou Maria Gadu) tem seus momentos de dignidade... Mas o jabá anula as possibilidades dos grandes conjuntos e intérpretes independentes de obterem um espaço de exposição justo; de exibirem parte de suas canções (ênfase em "SUA"; convenhamos que o teen/dance/soap opera pop atual em termos de sonoridade... Está alienado e padronizado, igual a maioria dos seus adoradores) e deixar que a audiência pondere sobre o que vale a pena curtir, que tipo de música lhes é valiosa e tudo o mais.


A sentença "Esterotipar não é legal" perde seu sentido quando o Jabá é efetuado: O pagodeiro geralmente é o cara mais bipolar da sua turma (o "Garanhão" para os amigos e o "fofinho" para as amigas); o axézeiro (Não resisto: hauahuahauha!!) é a pessoa com dificuldade de sustentar um namoro duradoro e acha no axé o som ideal para a ficação/fornicação, naquela efêmera sensação de felicidade; o funkeiro não gosta de falar muito (até sete palavras de uma vez, só) e sim de tocar o batidão possante alto, o reggaeiro bem... Precisa informar? E o roqueiro seria o desordeiro que usa preto e não quer absolutamente nada com a vida... Sim, faltam mais estilos; A estratégia das gravadoras parece desejar a uniformidade destas vertentes nos fatores seminais de um hit das paradas - refrão grudento + áudio instrumental vago/ lento/bem baixo + rostinho bonito - e produzir um ídolo periódico, não importando o conteúdo de seus CDS ou da massa encefálica de seus futuros fãs. Será que só os roqueiros que vêem alguma coisa errada nisso?


As pessoas precisam voltar a respirar música atráves das mídias, pois ela é um catalisador essencial para a expansão dos horizontes. Quiçá, se o povo vier a escutar a canção que “curte”; e após a execução dela, ouvir informações relevantes sobre o disco que a tal faixa ajuda a constituir, ele possa criar um gosto pela obra musical concreta. Além do mais, as versões acústicas dos sucessos das bandinhas de poprock fraldinha é a maior característica do Jabá nas rádios... Porque os leitores não sugerem a sua estação favorita a dar espaço ao mendigo violonista da Praça ou a banda que animou na sexta a festa do seu vizinho, por exemplo?
A Internet pode ser fonte de pesquisa de QUALQUER ASSUNTO.


Claro que a tendência sempre é martelar em nossa audição os hits (principalmente os da "Gringa") atuais. Contudo todas as vertentes e tempos musicais devem ser levados em conta nas nossas escolhas; dos clássicos até os contemporâneos, do Blues até o Dance pop e da Bossa Nova até o Forró. Demonstrar a diversidade da arte dos sons a todos os ouvidos, certamente, tornar-se-á uma experiência edificante para todas as classes sociais, cores, credos, pedigrees e times de futebol dispersos (literalmente) pelo Brasil; Amantes da Cultura, mas sem disposição para conhecer novos - e reconhecer os velhos -estilos musicais. Se o jabá e a Indústria Fonográfica terá sobrevida? Quem sabe... Ou quem duvida?